
- O Locutor ideal e a verba do cliente -
Meados de 80, período fértil na indústria do radio. Locutores do FM eram lembrados na sua maioria, pelo nome. Até ali, as relações entre ouvinte e locutor eram mais fortes, havia um algo a mais, os locutores falavam com o ouvinte, eram próximos.
O humor no rádio era escrachado, sarcástico, mas sem baixarias. Gente gritando mesmo, só em casa: gritos de riso, dor, paixão, surpresas. No rádio, gritos apenas no jogo de futebol, dos locutores que viviam (e vivem) do grito de gol (que felicidade). Na década de 90, por influência da Transamérica, lembro-me bem, o grito constante. O humor nas rádios também passou a beirar a banalização total. Falar passou a ser secundário, gritar necessário. Pasteurização geral. Tá certo, vão me chamar de radical, tudo bem. Só sei que dali prá frente, o que aconteceu em grande parte das emissoras, foi uma série de imitações do modelo que começou a dar certo!
Comecei a achar que o ser humano gosta mesmo é de grito. Eu, em plena floresta com o grito dos macacos. Aliás, Washington Olivetto disse em entrevista a um amigo que algumas rádios parecem macacos, uma imitando o que dá certo em outra; enquanto isso persistir a imagem do rádio estará sempre arranhada.
Melhor prestar atenção no Mr. W. O engraçado foi ver a sucessiva criação de clones do Marcelo Braga, atual diretor da Mix FM
em São Paulo. Creio que nenhum outro locutor tenha sido tão imitado na década passada. Méritos dele, claro.
Há poucos anos, noto o amadurecimento do ouvinte em um mundo onde somos bombardeados de informações. A busca pelas notícias que auxiliam no dia-a-dia das pessoas passou a ser fundamental. Saber mais sobre o que ouvimos, algo básico, e girar o dial à procura do novo, uma constante. Neste ponto, o novo século começou a destacar locutores com conteúdo de verdade: jornalistas, músicos e gente que tem o prazer de ler, conhecer, ir atrás da informação e tirar de tudo isso, material para tornar o seu horário de convívio com o ouvinte uma grande viagem. São heródotos professores, patrícias escritoras, daibens que simplesmente conversam indisciplinados com a gente (maravilha); irineus das novas manhãs e, claro, não esqueçamos dos zés, que de tanta pop culture na cabeça já tem 89 no sobrenome.
Somos todos fanáticos por vocês e sei que ainda são poucos.
Falei de profissionais de FM. Por ora. Embora adore AM, minha vida de surfista na praia do rádio aconteceu em frequência modulada. Toda essa gente aprendeu bastante na década de 80 (alguns já estavam no ar bem antes disso), ouviu (diminuindo o volume) a década de 90 e estourou 2000 colocando prá fora tudo o que sabe. O número de locutores clones ainda permanece elevado.
Acredito que o ouvinte vai saber dominar seus instintos primatas e escolher o melhor caminho para seus ouvidos. Isso me atrai. Surpreender ouvintes deve ser a meta constante para quem quer "fazer" o rádio.
Dar algo novo a ele, ir atrás e mostrar que garganta sem alma nada representa, é determinante. Ei, surpreenda-me, estou aqui, ligado e te ouvindo. Além de tudo, posso até achar que você é o locutor ideal para investir a verba do meu cliente. As pistas foram dadas. Siga-as.
Fonte: Agência Rádio/ 2007